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domingo, 4 de dezembro de 2011

Perigo invisivel que vem do campo

Brasil longe da rota dos surtos

Sem poder resolver o problema hídrico, agricultor protege horta com cuidados de higiene

Apesar de estar à margem de surtos de contaminação em vegetais como os ocorridos na Europa, o Brasil enfrenta dificuldades para garantir que os hortigranjeiros cheguem ao atacado e ao varejo livres de bactérias patogênicas comumente encontradas em hortaliças e folhosas, como Escherichia coli, Salmonella, Shigella e Listeria monocytogenes. No país, o maior problema é a qualidade da água bombeada para a irrigação destes produtos primários, especialmente em cinturões verdes no entorno de metrópoles, onde córregos e rios apresentam altos níveis de coliformes fecais, indicando provável lançamento de esgoto doméstico sem tratamento prévio. Em municípios menos urbanizados e distantes dos grandes centros, o vilão é o uso de dejetos sem o tratamento adequado. Adubação orgânica e os próprios trabalhadores rurais são outras fontes de contaminação.

De mãos atadas para resolver o problema das fontes hídricas, que depende de investimento em saneamento básico, o agricultor pode proteger a produção com uma série de ações, da escolha do solo, passando pelos cuidados com higiene dos manipuladores até práticas sanitárias rotineiras.

Estudo coordenado pelo professor de Microbiologia e Parasitologia das Faculdades Integradas Torricelli, Josué de Moraes, acrescenta que o cultivo hidropônico apresenta mais bactérias do que o plantio convencional, no solo. Para evitar a incidência de patógenos neste sistema, caracterizado pelo fornecimento de minerais essenciais ao vegetal por meio aquoso, é indicado o uso de água de boa qualidade, sementes certificadas e substratos livres de doenças.

Para André Bispo, fiscal da coordenação de Qualidade Vegetal do Ministério da Agricultura, apesar de seus gargalos, o país tem se mantido longe dos surtos e dos casos graves de contaminação por dois diferenciais em relação à Europa. O primeiro é que grande parte das hortaliças e verduras é produzida a céu aberto no país, sistema caracterizado pela competição entre insetos e menor concentração de bactérias, como em ambientes fechados. O segundo fato é cultural: a maioria dos consumidores brasileiros possui o hábito de lavar os vegetais quando chegam em casa. Ele lembra que o Brasil, seguidor de normas internacionais sobre hortaliças e folhosas, signatário do Codex Alimentarius, tem feito um intenso trabalho para que as boas práticas agrícolas garantam a qualidade do que sai do campo. Conforme Bispo, os produtores estão fazendo a sua parte. "Na ausência de problemas graves, trabalhamos preventivamente. Os produtores estão bem conscientes e os supermercados desenvolveram programas de fidelidade e estão fazendo exigências altas a seus fornecedores."

Responsável pelo setor de alimentos da Divisão de Vigilância Sanitária do Estado, Susete Lobo Saar de Almeida, lembra que problemas relacionados com a segurança dos alimentos são cada dia mais frequentes e ganharam espaço por causa do aumento do número de casos como o dos brotos contaminados na Alemanha, uma epidemia que resultou em 33 mortes e deixou mais de 3 mil pessoas doentes, além de provocar o embargo temporário às verduras da União Europeia. Esses brotos são produzidos em condições de calor e umidade controlados, e os cientistas os consideram possíveis vetores de bactérias patogênicas. Por isso, Susete alerta: para eliminar as bactérias, não adianta o consumidor usar água ou vinagre. A eficácia somente será garantida com a imersão em hipoclorito de sódio (água sanitária) por cerca de 15 minutos e depois lavagem com água potável.

DESAFIO EXTRA

Segundo especialistas ouvidos pelo Correio do Povo, urbanização intensa, globalização do mercado de alimentos, mudança de hábitos e técnicas de produção primária cada vez mais intensificadas tornam um desafio produzir vegetais com baixa incidência de bactérias.

Bactérias com poder de fogo

Transmitida essencialmente por meio do consumo de alimentos contaminados, causando a listeriose, que provoca sintomas semelhantes aos de uma gripe comum. Existe o risco da infecção passar para o sistema nervoso, podendo ocorrer dores de cabeça e rigidez de pescoço.

E.coli

Escherichia coli é uma bactéria bacilar gram-negativa, que, juntamente com o Staphylococcus aureus é a mais comum e uma das mais antigas bactérias simbiontes do homem.

Salmonella

Grupo bacteriano que pode causar gastroenterites, encontrada, em geral, em alimentos de origem animal, como carnes, aves, ovos e leite.

Shigella

O gênero identifica bactérias gram-negativas, não esporuladas e em forma de bastão, intimamente relacionadas com a Escherichia coli e Salmonella. É o agente causador da shigelose humana e durante a infecção normalmente causa disenteria.

Procura-se água de qualidade

A carência de fontes de água "acima de qualquer suspeita" em zonas produtoras próximas às grandes cidades, como, por exemplo, na região Metropolitana de Porto Alegre, preocupa órgãos de saúde e ambientais no Rio Grande do Sul. Além da irrigação da produção de hortaliças e vegetais, essa água, não raro, é usada pelo produtor para a diluição de fertilizantes, higienização de equipamentos e das mãos de quem planta as mudas, maneja o vegetal e colhe o produto. André Bispo, fiscal da coordenação de Qualidade Vegetal do Ministério da Agricultura (Mapa), orienta que o produtor utilize preferencialmente água de lençol freático ou de nascentes, embora ele mesmo reconheça que elas são cada vez mais raras de serem encontradas nos dias de hoje pelo país.

Pelas regras do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), estabelecidas na resolução n 357/2005, a produção de hortaliças consumidas cruas deveria utilizar somente água doce de rios das classes 1 e 2, uma padronização que estabelece, entre inúmeros limites, níveis máximos de coliformes fecais, transmissores de bactérias para produtos que saem do campo. Mas, na prática, a lei esbarra na realidade. Segundo o chefe da Divisão de Vigilância e Saúde Ambiental do Centro Estadual de Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Estado, Salzano Barreto, o horticultor brasileiro hoje é refém da falta de investimentos em saneamento básico no país. "A situação é muito preocupante. Quando se trata de contaminação biológica, o produtor é uma vítima. Tocou o negócio familiar, produz nas mesmas áreas que o avô, mas sofre com a degradação ambiental. Na maior parte do ano, no Estado, não há água disponível para a produção de hortaliças nas categorias determinadas pelo Conama."

Apesar da situação hídrica, para José Candido Motta, diretor da Gerência de Defesa Vegetal do Departamento de Defesa Agropecuária da Secretaria da Agricultura (Seapa), os principais gargalos da contaminação de hortigranjeiros estão nas etapas subsequentes da produção. "O ambiente para seu desenvolvimento e capacidade de multiplicação, a ponto de afetar o ser humano, acontece fora da porteira da fazenda."

CLASSE 1

Água destinada à irrigação de hortaliças consumidas cruas e de frutas que se desenvolvam rente ao solo e que sejam ingeridas cruas, sem remoção de película. Não deverá ser excedido o limite de 200 coliformes termotolerantes por 100 mililitros.

CLASSE 2

Água Destinada à irrigação de hortaliças e plantas frutíferas. Não deverá ser excedido o limite de 1.000 coliformes fecais termotolerantes por 100 mililitros em 80% ou mais, de pelo menos seis amostras no período de um ano com frequência bimestral.

Fonte: Conama

Boas práticas, caminho seguro

Para manter sob controle a contaminação de vegetais por bactérias no campo, o produtor rural precisa seguir à risca processo aplicado para garantir a segurança em geral dos alimentos. É simples, não é caro, mas requer dedicação, escolhas acertadas e acompanhamento da assistência técnica. Somente assim ele poderá cumprir integralmente as Boas Práticas Agrícolas (BPA), que orientam desde as atividades relacionadas com o tratamento do produto antes e após a colheita até a expedição e o transporte. O conjunto de recomendações em vigor permite uniformizar a adoção de procedimentos para assegurar a qualidade das hortaliças produzidas nos diferentes sistemas de produção empregados no país, explica a pesquisadora Neide Botrel. O gerente da Emater Regional Lajeado, Derli Paulo Bonine, acrescenta que o fundamental é analisar todo o processo produtivo, desde a fase de cultivo até a fase de processamento, identificando onde pode ocorrer contaminação, e tomar as medidas necessárias para evitar que isso aconteça.

Para o presidente da Associação de Produtores da Ceasa, Evandro Finckler, que produz 18 tipos de folhosas em Canoas, no papel, as boas práticas são exemplares, o problema é cumprir todas as exigências num dia a dia corrido que começa ao amanhecer. Com assistência técnica da Emater, ele testa a água que usa de uma vertente em laboratório periodicamente e cuida da higiene pessoal e saúde dos cinco trabalhadores. O produtor assegura seguir grande parte das normas. Ainda assim, pondera, algumas exigências são difíceis de serem cumpridas. "No papel existe, agora vou te falar, botar em prática é outra história, não é fácil. No campo, banheiro é mato."

O cenário mostra ainda que são necessários programas de monitoramento periódicos, com o objetivo de traçar um panorama real da atual situação de vegetais higienizados em fruteiras e supermercados. Esses vegetais são prontos para o consumo ou minimamente processados. "Temos poucos produtores que trabalham com o fornecimento de vegetais higienizados. A maioria não adota este procedimento, faz só a lavagem em água. Sabendo-se que pode haver contaminação, sempre é conveniente higienizar frutas e hortaliças antes de consumi-las ao natural. A fiscalização é uma atividade que deve ser feita, de modo a aperfeiçoar os processos e evitar os riscos", prega Bonine.

O que fazer para evitar a contaminação

A adição de material orgânico ao solo não causa problema de contaminação a cultivos posteriores, desde que enterrado por lavração e gradagem.

Em se tratando de contaminação biológica, não há perigo na aquisição de mudas e sementes. Mesmo que exista alguma bactéria nociva à saúde, não passará ao cultivo;

Não é aconselhável plantar em área alagável pelos riscos de contaminações, como as provocadas por chuvas e inundações;

É fundamental que esterco e outros fertilizantes naturais sejam aplicados fermentados, o que elimina agentes causadores de doenças em seres humanos;

A compostagem é a técnica recomendada para o uso do esterco, pois, quando atinge temperaturas acima de 60°C, elimina organismos patogênicos;

A higienização do produto no pós-colheita deve ser feita com água limpa e corrente, nunca em tanques, onde podem permanecer resíduos e contaminantes;

As áreas de produção devem ser protegidas do acesso de animais domésticos;

Os equipamentos e caixas plásticas devem ser sanitizados com hipoclorito de sódio sempre antes de acondicionar frutas e hortaliças.

Os banheiros, com fossa ou químicos, devem ficar localizados próximo à área de trabalho dos agricultores.

Fonte: Ministério da Agricultura/ Emater-RS/ Embrapa Agrobiologia

Recomendações para manipuladores

Trabalhadores com lesões não devem manusear frutas ou hortaliças destinadas ao mercado

A movimentação de pessoal aumenta os riscos de contaminação microbiana particularmente associados à respiração, ao intestino, aos cabelos e à pele. Por isso, hábitos como espirrar, tossir ou comer em áreas produtivas devem ser monitorados e evitados.

Pessoas não autorizadas devem ficar longe das hortas.

Recomenda-se que trabalhadores com lesões não manuseiem frutas e hortaliças que serão comercializadas.

As unhas devem estar cortadas curtas e sem esmalte.

Sugere-se higienização das mãos com escova, sabão e enxágue.

Fonte: Sebrae/ Emater

Por:Patrícia Meira - correio do povo rural

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