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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Educação(03):Naomar Monteiro de Almeida Filho fala sobre mudanças no Ensino Superior

Idealizador de uma nova organização universitária, o reitor da Federal da Bahia explica como futuros professores poderão estudar, em breve, lado a lado com estudantes de Medicina e de outras áreas.

A evasão nas universidades brasileiras é assustadora. Nas públicas, 40% dos alunos desistem dos cursos de graduação porque os currículos não atendem às necessidades e expectativas de cerca de 30% dos matriculados. Na Universidade Federal da Bahia (UFBA), da qual Naomar Monteiro de Almeida Filho é reitor desde 2002, 37% dos estudantes abandonam o sonho de ter um diploma. "Não podemos mais ser coniventes e omissos. O sistema atual é ultrapassado e injusto demais. O Ensino Superior precisa mudar", afirma ele, colocando em pauta a necessidade de universalizar o acesso às faculdades e revisar os currículos.
Nos últimos três anos, a missão desse médico epidemiologista tem sido divulgar em encontros uma proposta de combate à epidemia da evasão, da má qualidade da Educação e da falta de vagas. O movimento conhecido como Universidade Nova foi adotado pelo Ministério da Educação (MEC) num decreto assinado em agosto de 2007 que instituiu o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). "Uma conquista sem precedentes", comemora o reitor. A meta, em dez anos, é dobrar (de 680 mil para 1,4 milhão) o número de estudantes de graduação.

Saiba mais sobre essa proposta na entrevista a seguir. O reitor dispensa o tratamento de magnífico e pede para ser tratado pelo primeiro nome.

Quais são as principais mudanças propostas para as universidades brasileiras?
Naomar Monteiro de Almeida Filho Pautar os currículos universitários numa trajetória pedagógica flexível. A boa notícia é que o decreto aprovado pelo MEC em agosto prevê que, até 2012, todas as federais terão de criar currículos compatíveis entre si - e baseados em ciclos e na interdisciplinaridade, como a UFBA promete já para 2008. Aliás, espero que nossa experiência sirva de inspiração para outras instituições. Segundo esse projeto, para conseguir um diploma, o jovem terá de fazer um primeiro ciclo de formação geral, dividido em blocos e com uma série de disciplinas de diferentes áreas do conhecimento. A profissionalização terá lugar no último ciclo, contemplando graduação e pós-graduação ao mesmo tempo.

Por que é preciso mudar o modelo atual?
Naomar Estamos atrasados, seguimos um modelo do século passado! Ele tem efeitos sociais perversos, como a escolha precoce da profissão só porque o sistema de formação exige isso no início. O que rege os interesses atuais é a profissionalização. Na Escola Politécnica da UFBA, existe uma disciplina conhecida como Introdução às Engenharias. Os calouros são recebidos num grande curso para aprender mais sobre a carreira e as diretrizes do curso. Mas para que servem essas informações nessa altura do campeonato? Eles já optaram. O resultado é que muitos abandonam os estudos e, por isso, temos esses altíssimos índices de evasão, que são um verdadeiro massacre de jovens.

Um jovem de 16 anos tem condições de escolher uma carreira?
Naomar Tem, mas, com as informações e a formação atuais, a escolha é superficial, sem que ele conheça de fato todas as possibilidades de conhecimento e atuação no mundo dessa carreira. Hoje, muitos estudantes que têm um bom conhecimento de Matemática tentam, por exemplo, cursar Engenharia, mas não conseguem passar. A idéia é que eles parem de se tornar professores de Física e Matemática só porque não tiveram êxito no vestibular. Com a reforma, as chances de fazer uma escolha acertada são maiores, e o risco de evasão, menor. Além disso, haverá mais oferta de vagas, principalmente no período noturno. Quem optar pelas licenciaturas fará a escolha por talento.

O vestibular continuará como é hoje?
Naomar Na minha opinião, esse é o maior exemplo da injustiça e do arcaísmo do sistema. A aprovação no teste causa uma comoção social jamais vista em outro país. Seu princípio é a exclusão, não a inclusão. As instituições não estão recrutando jovens talentos, mas garotos adestrados para marcar um X. Perde-se a função social de uma faculdade. O que está em discussão é a melhor forma de utilizar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou outro critério para fazer a seleção.

Como será organizado o primeiro ciclo de formação geral?
Naomar Na UFBA, estamos prevendo três anos de duração, com o nome de Bacharelado Interdisciplinar. O estudante poderá escolher pelo menos duas disciplinas de cada área do conhecimento para cursar. O desempenho nesse início dos estudos superiores vai definir as escolhas dali em diante. Queremos formar jovens em cultura – por isso, os títulos do bacharelado são gerais. Ao fim desse primeiro ciclo, as disciplinas se afunilam. Os blocos de Formação Específica compreendem o mínimo de oito e o máximo de 20 componentes curriculares ou disciplinas voltados para áreas do conhecimento, de livre escolha do aluno.

O aluno de Pedagogia poderá dar aulas no fim do Bacharelado Interdisciplinar?
Naomar Não. Será necessário cumprir o segundo ciclo com foco nas licenciaturas. Nessa etapa, haverá a opção de fazer ao mesmo tempo a pós-graduação. O estudante fará suas escolhas.

Esse modelo não é o velho 3+1, em que os cursos de preparação para a docência têm formação inicial em três anos e formação prática no último?
Naomar Não, de jeito nenhum. Isso já rendeu muita polêmica. Nós estamos propondo a inversão desse conceito porque a prática pedagógica pode ser antecipada para a formação geral. O currículo é muito mais flexível e dinâmico para ser explorado apenas linearmente. Prevemos vários desenhos, vários modelos de arquitetura curricular.

Como fazer para interligar as diferentes áreas num único ciclo?
Naomar Chega de formação fragmentada. Os jovens precisam ter contato com três culturas: humana, científica e artística e, por isso, o movimento da Universidade Nova propõe uma formação geral para todos os estudantes em três anos. Leitura, domínio de uma língua estrangeira e estudos contemporâneos farão parte dessa etapa com diversas “interdisciplinas”. Universitário tem de ler muito e produzir textos impecáveis, acadêmicos ou não. É ficção acreditar que língua estrangeira faz parte do currículo do Ensino Básico. Ela só está presente em alguns segmentos sociais.

Se os mais ricos recebem melhor Educação, cobrar mensalidade de quem pode pagar não seria uma forma de promover a justiça social?
Naomar Não, deve haver outros mecanismos mais justos. Essa medida seria tão injusta quanto a penalização do aluno pobre no sistema vigente. A cobrança de mensalidade em outros países é quase simbólica e o ensino é público e acessível a grande parte da população. As instituições particulares americanas são fundações e não são balizadas pelo mercado, mas pelo conhecimento, pelo saber.

Com as mudanças propostas, o Ensino Superior não estaria se limitando a cumprir o papel que tradicionalmente deveria ser do Ensino Fundamental e Médio?
Naomar Não. Quem afirma isso, equivocadamente, parte do princípio de que a universidade deve ser apenas profissionalizante. E espera que desde o início o currículo seja voltado para a inserção do jovem no mercado de trabalho. Defendemos estudos superiores aprofundados e com a complexidade necessária para cumprir essa etapa da formação, independentemente da preocupação com o trabalho.

É possível transformar a universidade sem mudar o Ensino Básico?
Naomar A universidade está como está porque se descolou do Ensino Médio. Hoje, o que ela sinaliza para o Ensino Básico? A principal mensagem é que basta ultrapassar a barreira do vestibular para conseguir um emprego. O que se encontra depois desse teste injusto tem pouca importância. Assim, faltam estímulo e perspectiva para os alunos do Ensino Médio. Eles sabem que têm poucas chances de prosseguir os estudos e muitos nem se atrevem a prestar um vestibular. Quantos não abandonam a escola no meio do caminho? Acredito que, aos poucos, ocorrerá uma regulação natural do nível médio às condições do ensino universitário. Continuar os estudos terá outro sentido

Como os professores universitários têm recebido a proposta?
Naomar Muitos estão tentando compreendê-la. Mas não tem sido fácil, pois a base do projeto é a cultura e bem sabemos que a mudança mais difícil que existe é na maneira de pensar. Há muito receio porque os protagonistas da universidade serão os estudantes, que terão a chance de escolher a melhor trajetória de formação.

Como a qualidade do ensino será garantida?
Naomar Um dos vieses será a cobrança dos próprios alunos. Será quebrada a cumplicidade atual. Hoje, se o jovem passou no vestibular, é quase tácito que ele se forme. No Bacharelado Interdisciplinar, ele vai exigir melhor desempenho dos docentes para poder avançar na etapa profissional. Se agora temos excelência na pós-graduação, em breve podemos esperar o mesmo na graduação. Essa é uma das pequenas mudanças que me enchem de otimismo e me faz acreditar em resultados positivos.

Há algum plano específico para os cursos de licenciatura?
Naomar Eles terão maior oferta de vagas. O Brasil está precisando de professores. Isso não significa que as áreas saturadas deixarão de existir ou receber investimento. Elas continuarão a ter espaço, mas não podemos fechar os olhos para as necessidades atuais.

O tempo de conclusão dos cursos será alterado?
Naomar Sim. A universidade nova permite saltos. Hoje um jovem que tem um talento especial em Matemática é obrigado a cumprir linearmente o bacharelado, depois a licenciatura, passar pelo mestrado e, por fim, o doutorado. Não existe nenhum mecanismo que o projete rapidamente no mundo profissional e acadêmico. Ele vai terminar o doutorado por volta dos 28 anos, mas poderia ter uma atuação muito maior antes disso. Na média, nossos doutores têm 35 anos.

Quem são seus parceiros na elaboração da Universidade Nova?
Naomar O grande protagonista já morreu. Anísio Teixeira (1900-1971), grande pensador da Educação, discutia as bases do que chamamos hoje de Universidade Nova na década de 1930, juntamente com os intelectuais da geração da vanguarda da Escola Nova. Ele é o mentor da reforma. Hoje, alguns reitores, como Aloísio Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luis Bevilaqua, da Universidade Federal do ABC (a primeira a funcionar nesse novo formato), e Timothy Mulholland, da Universidade de Brasília, têm contribuído na construção da arquitetura.

Por:Roberta Bencini (novaescola@atleitor.com.br)
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Contato
Naomar Monteiro de Almeida Filho, gabinete@ufba.brinternet
Leia mais sobre a Universidade Nova em www. universidadenova. ufba.br

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