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terça-feira, 8 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher: o que é ser mulher ontem, hoje e amanhã

Quatro mulheres de uma mesma família representam as mudanças nas gerações femininas

Na sala de um sobrado na Zona Norte da Capital, reúnem-se quatro gerações de mulheres de uma mesma família. A recém-nascida Melissa dorme nos braços da mãe, Bárbara de Leão Pufal, 30 anos, ladeada pela avó, Dóris de Leão Pufal, 60, e a bisavó, Maria Brasil de Leão, 82 anos. A conversa em torno da criança vai do passado, do tempo em que a bisa fazia aulas de economia doméstica no colégio interno, passando pelo dia em que vovó descobriu a microssaia e chegando à mamãe e seus múltiplos papéis, até o futuro: que desafios e conquistas estão reservados a Melissa quando ela chegar à idade adulta?

Mais do que papo de família, as histórias e os dilemas de Bárbara, Dóris e Maria — que também são tia, avó e bisavó de Isadora, três anos, e Marina, 10 meses — e as expectativas que repousam sobre a nova geração ilustram as mudanças por que passaram as mulheres nas últimas décadas e o que se anuncia para o futuro a curto prazo e para ainda mais adiante, quando for a vez de Melissa e suas primas.

É esse retrato, do passado e do futuro de mulheres de muitos nomes, que Donna oferece nas oito páginas a seguir para comemorar mais um Dia Internacional da Mulher.

Maria Brasil de Leão, 82 anos, dona de casa
A bisavó


Em 1944, Maria formou-se professora, mas nunca planejou lecionar de fato. Quarta filha de seis irmãos, havia sido criada para tornar-se uma boa dona de casa, como era regra então. No Colégio Santa Catarina, de Novo Hamburgo, onde foi aluna interna, aprendeu tanto os fundamentos de didática quanto as prendas domésticas.

Maria chegou a trabalhar por um ano na secretaria da Escola de Engenharia da UFRGS, em que o pai lecionava Física. Mas, dois anos depois de conhecer seu primeiro e único namorado, numa tarde de footing na Rua da Praia, deixou o emprego para se casar. Tinha, então, 19 anos. ("Nossa senhora", espanta-se Bárbara ao perceber como a avó se casou jovem.)

O casal não tinha conta conjunta, e cabia a Maria pedir dinheiro para o que precisava:

— Tinha horror a pedir, mas na época era obrigação do marido, já que não queria que a mulher trabalhasse.

Mas Maria também contrariou tendências e tabus. Apesar de as estatísticas apontarem a média de 6,2 filhos por mulher na década de 1950, ela deu à luz apenas dois, Newton e Dóris. Também jamais se convenceu de que havia programas e atividades vetados a mulheres desacompanhadas, como ir ao cinema. Apaixonada por filmes, Maria ia sozinha às matinês e, quando um homem inconveniente vinha sentar-se ao seu lado, simplesmente mudava de lugar.

Também vinha do cinema a musa que era objeto de desejo dos homens e modelo de beleza para as mulheres da época, a voluptuosa Marilyn Monroe. Por volta dos 30 anos, em busca de formas mais generosas, Maria se lançou numa empreitada que provocaria espanto nas mulheres imersas hoje na ditadura da magreza: fez dieta para engordar. Com 1m58cm de altura e 46 quilos, queria chegar, pelo menos, aos 53. Por três meses, comeu de tudo que fosse calórico, mas ganhou apenas meio quilo e desistiu.

Hoje, aos 82 anos, viúva, Maria mora sozinha, cuida das próprias finanças e viaja pelo mundo. Aprecia o sucesso profissional da filha e da neta, mas questiona o preconceito vigente em relação a quem escolhe ser dona de casa.

— Quando preencho uma ficha, sempre escrevo "do lar" e coloco acento no "o" para valorizar.

Dóris de Leão Pufal, 60 anos, defensora pública
A avó

Outubro de 1972. A apenas duas semanas de seu casamento, Dóris viajou com a mãe, Maria, e o noivo a Cruz Alta, para dar os últimos retoques na casa onde o casal iria morar. Entre uma arrumação e outra, com a porta do quarto aberta, ela e o futuro marido se sentaram na beira da cama para conversar. Foi neste instante que Maria apareceu para cumprir o papel esperado na época de mãe de uma jovem solteira:

— O que vocês estão fazendo nessa cama?

A tão propalada revolução sexual ainda não dera as caras de fato para as moças de família gaúchas. Entre namoro, brigas e noivado, Dóris e o noivo já estavam juntos havia sete anos, mas sem avançar o sinal. Sexo era assunto tabu em casa, mesmo nas conversas entre mãe e filha, e virgindade era uma exigência — somente para as mulheres.

— A geração das minhas filhas é menos hipócrita do que a minha, tem mais liberdade sexual. Nós tínhamos desejo, mas era tabu — avalia Dóris.

Então, a solução era casar cedo. Dóris subiu ao altar aos 22 anos. Mas, como havia decidido na adolescência, teria quatro filhos (a média nos anos 1970 era de 5,8 filhos por mulher) e também uma profissão. Formou-se em Direito aos 26 anos, grávida do primeiro filho, e chegou aos anos 1980, a década-marco da arrancada feminina no mercado de trabalho, com três crianças e a carreira iniciada na defensoria pública. Assim como muitas colegas de escola, ela encampou a rotina de mãe, mulher, dona de casa e profissional — os tais múltiplos papéis ainda hoje tão debatidos.

Se nunca foi muito chegada à cozinha e sempre contou com a ajuda de empregada, Dóris não se furtou de comandar o lar, organizar a rotina dos filhos, e logo percebeu que trocar fraldas, dar banho, levar ao médico e participar das reuniões de escola seriam tarefas apenas dela, não do marido. Mesmo com a caçula, nascida em 1986. Mas, justiça seja feita: até hoje ir ao supermercado é tarefa dele, e nunca houve cobranças pelo fato de ela jamais ter querido intimidade com o fogão.

Bárbara de Leão Pufal, 30 anos, publicitária
A mãe


Bárbara nasceu na época pós-revolução sexual, cresceu com os avanços da mulher no mercado de trabalho e se tornou mãe uma semana antes de a primeira mulher presidente do país tomar posse. Jamais cogitou a hipótese de não seguir uma profissão. Sexo também nunca foi um tabu: não faltou abertura para falar com a mãe sobre o assunto, começou a tomar pílula anticoncepcional aos 16 anos e teve alguns namorados até aquela tarde em que conheceu um cara na feira alternativa Mix Bazaar. Trocaram telefones, torpedos e conversaram pelo MSN até engatar um romance há cinco anos. Sem se casar no papel, formalidade que Bárbara dispensa.

No dia 25 de dezembro, nasceu Melissa, a primeira — e possivelmente única — filha do casal. Desde então, a publicitária e o marido se dividem na troca de fraldas e até na hora de acordar no meio da noite.

— Na minha época não era assim, os homens não ajudavam — lembra Dóris, mãe de Bárbara.

Tudo cor-de-rosa, então, para as mulheres em 2011? Não. Exemplo: antes de engravidar, Bárbara deixou a agência onde trabalhava por, entre outros motivos, saber que lá grávidas não eram bem-vindas. Hoje, em licença maternidade de quatro meses, que irá emendar com um mês de férias, a publicitária comenta:

— Sempre quis trabalhar, mas, se pudesse ficar um ano com a Melissa, ficaria.

Eis um dos dilemas que persiste na geração de Bárbara: a (auto)cobrança de ser ótima mãe, dona de casa, amante e profissional. E ainda há, claro, a universal ditadura da magreza. Dos 24 quilos que engordou na gravidez, ela já perdeu 18 em intensa malhação desde o 28º dia após o parto. Faltariam mais seis quilos, mas Bárbara quer perder oito.

Melissa Pufal Bürger, nascida em 25 de dezembro
A filha


O que o futuro reserva para a próxima geração

Melissa completará 30 anos, a idade de sua mãe, Bárbara, em 2040. Especialistas de diferentes áreas esboçam qual será o cenário que esta novíssima geração de mulheres deverá encontrar na idade adulta.

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Moda: Roupa com história
Há tendências atuais que passarão de mãe para filha. Em tempos de moda globalizada, o toque local ganhará cada vez mais força, como na utilização da matéria-prima, assim como a mistura de elementos artesanais e tecnológicos - por exemplo, o tricô, que voltou repaginado nas últimas coleções. E, seguindo a onda atual dos brechós pela internet e encontros de amigas para trocarem roupas entra si, cada vez mais a moda ultrapassará a noção de tendência: vai interessar também a história e a origem de cada peça. Assim, o ciclo de uso de cada produto será maior, como destaca Luiza Futuro, analista de tendências da Box1824.

Trabalho: Menos desigualdade
As mulheres no mercado hoje, que adiam a maternidade para depois de se firmarem na carreira, ajudam a formar a expectativa dos empregadores em relação à geração futura. A mulher da próxima década herdará a valorização da educação de sua mãe e avó e deverá ser mais qualificada e encontrar um cenário mais favorável no mercado de trabalho, com salários mais equilibrados. Essa é a aposta de Cecília Machado, professora da Escola de Pós-graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas e de Ana Cristina Limongi França, professora do Núcleo de Gestão da Qualidade de Vida da USP, que acrescenta ainda que as mulheres terão mais ousadia e estabilidade, inclusive como donas de empresas.

Salários mais altos
Nos EUA, a projeção é que em 2030 as mulheres ganharão mais do que os homens. Essa virada já é realidade em alguns mercados em que os salários femininos superam os masculinos, como destaca Fabiana Maioli, trend researcher para a TEA Trends, de Milão: em Nova York, por exemplo, as profissionais na faixa dos 30 anos ganham, em média, 17% a mais do que os colegas homens, um percentual que chega a 20% em Chicago. Como o Brasil costuma seguir os códigos culturais americanos, ressalta Fabiana, essa tendência também poderá aportar por aqui.

Sexualidade e relacionamento: A sua maneira
Se as avós e bisavós cresceram com o tabu da virgindade, e as mães viveram na prática a revolução sexual, o que caberá à próxima geração? Para o especialista em relações amorosas Ailton Amélio, autor de O Mapa do Amor, a partir da lógica do movimento pendular, que vai aos extremos, tendo ao centro o ponto de equilíbrio, pode-se prever quer a mulher das próximas décadas encontrará o meio-termo entre os tabus do passado e as exigências de hoje, em que muitas mulheres consomem revistas e livros de autoajuda sobre como agradar os homens na cama: ela viverá o sexo como preferir, com mais autoestima e segurança.

Mais casamentos vida afora
As apostas da psicóloga clínica, terapeuta sexual e de casal Ana Maria Zampieri, autora de Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade, apontam para casamentos menos duradouros e de maior qualidade ao longo da vida cada vez mais longeva. Ela acredita ainda que deverá cair a crença de que só corpos perfeitos e jovens têm prazer sexual e que mais mulheres colocarão em prática o que muitos homens já fazem: ter prazer sexual na meia-idade não necessariamente com o cônjuge. Segundo a psicóloga, ganhará força a percepção de que não é preciso desfazer um casamento com uma boa parceria apenas pelo fato de não haver mais sexo.

Beleza: Magreza sem fim
Ainda que profissionais da área da saúde, mulheres cansadas da briga com a balança e até alguns nomes do mundo da moda façam coro contra os excessos, a ditadura da magreza deve seguir firme para a próxima geração. É consenso entre especialistas: no futuro, ser bela ainda equivalerá a ser magra. Com um agravante, como alerta o cirurgião plástico Telmo Morsch dos Reis, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Estética no Rio Grande do Sul: devido às mudanças no padrão alimentar e aos índices crescentes de obesidade, será cada vez mais difícil enquadrar-se no modelo de beleza.

Selo médico
O comprometimento das pessoas com a estética será cada vez maior no futuro, assim como a tendência iniciada nos anos 1990 de medicalizar. Como destaca a historiadora Denise Sant'Anna, impera cada vez mais a concepção de que beleza é algo que você compra — e com selo médico.

Maternidade: Menos filhos
Em 2009, a média de filhos por mulher no Brasil era de 1,94. Esse número deverá cair para 1,50 em 2030 - abaixo do nível de reposição da população.

Pós-separação
Em 1990, dos divórcios concedidos em primeira instância a casais com filhos menores de idade, em 2,96% dos casos ambos os cônjuges dividiram a guarda. Este índice passou para 4,7% em 2009. Apesar do crescimento registrado, o gerente de Estatísticas Vitais do IBGE, Claudio Crespo, afirma que não se pode prever, a partir daí, um grande crescimento da guarda compartilhada para os próximos anos. Além de se tratar de uma lei recente (2008), explica, há uma concepção arraigada de que a criança permaneça com a mãe, e será preciso uma mudança cultural em todos os segmentos da sociedade, para além da classe média.

Gravidez adiada
Praticada desde 2007, a técnica de congelamento de óvulos por vitrificação será amplamente utilizada, permitindo que as mulheres adiem o momento de ter filhos com mais segurança. O aumento da expectativa de vida, e a possibilidade de os casais ultrapassarem os 80 e os 90 anos saudáveis, continuará fazendo da maternidade um projeto tardio. Em 2020, será comum o primeiro filho chegar entre os 45 e os 50 anos.

Na forma da lei
A lei não contempla hoje todos os arranjos de família no Brasil, que incluem, por exemplo, casais homossexuais com ou sem filhos e mulheres que têm filhos sozinhas por meio da reprodução assistida. Mas essas entidades familiares existem, não à toa a desembargadora aposentada Maria Berenice Dias hoje se intitula advogada de Direito das Famílias, no plural. Ela aposta que, se hoje é preciso recorrer ao judiciário para fazer valer os direitos das diferentes composições familiares, a próxima geração já deverá contar com leis que encampem essas novas questões. Da mesma forma, Maria Berenice acredita que em algumas décadas deverá ser aprovada a descriminalização do aborto.

Patricia Rocha - DONNA ZH

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