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terça-feira, 8 de março de 2011

Brasil comemora o primeiro Dia Internacional da Mulher com uma mulher na Presidência

A luta pela ocupação dos espaços, no entanto, não começou nem termina por aí
Da primeira mulher a ser eleita para um cargo político, a deputada federal Carlota Pereira de Queirós, até a primeira presidente do país, Dilma Rousseff, passaram-se 76 anos. Dilma nem sequer tinha nascido quando Carlota dava um dos mais importantes passos da luta da mulher brasileira por um cantinho que pudesse chamar de seu na política, no mercado de trabalho, nos bancos das universidades, dentro de casa…

Essa batalha não foi Carlota a primeira a comprar — nem sabemos quem será a última. Mas ela está descrita ponto a ponto em milhares de livros espalhados por prateleiras empoeiradas das bibliotecas brasileiras. Briga de Carlotas, Anas, Marias e Madalenas às quais, de alguma forma, Dilma, que hoje fala em nome não das mulheres, mas de 190 milhões de pessoas, deve alguma coisa.

São mulheres que arrumaram uma forma, por vezes sutil, outras nem tanto, de desafiar valores culturais e enfrentar paradigmas numa época em que mal cabia a elas o direito à voz e às letras. Algumas conhecemos de nomes de escolas, ruas, praças, museus. Outras deixaram seu legado às conquistas femininas, não só as políticas, e retiraram-se pelas portas dos fundos, sem fazer alarde nem colecionar homenagens ou fotografias em livros e jornais.

Todas, no entanto, deram a sua contribuição para que Dilma chegasse onde está hoje. E, ainda assim, a trajetória até uma igualdade que vá além daquela escrita em leis deve render uma boa caminhada, garantem historiadoras, cientistas políticas e sociólogas.

— O fato de termos uma presidente mulher não significa que a sociedade deixou de ser centrada em valores sexistas fortes. E isso não é explícito, porque faz parte do imaginário social — opina a professora de ciências sociais da Universidade de Brasília (UnB) Lourdes Bandeira, especialista em questões de gênero. — Há uma resistência enorme até para se escrever ou dizer ‘presidenta’ no lugar de ‘presidente’. Ou seja, é difícil mesmo feminilizar o cargo — completa a professora de história também da UnB Tânia Navarro.

Nesta terça-feira, Dia Internacional da Mulher, mais que flores e bombons, é delas também que devemos nos lembrar.

— Não é porque as coisas ainda não são ideais que não temos motivos para comemorar. Temos sim, e muito. Demos grandes passos até aqui — sublinha Schuma Schumaher, pesquisadora do Instituito Patrícia Galvão.

Conheça a trajetória de algumas guerreiras que trilharam esse caminho antes de Dilma

:: Maria Quitéria ( I 1792 = 1853)

Os brasileiros também tiveram sua Joana D'Arc para lutar pela independência. É assim considerada a baiana Maria Quitéria, militar heroína da Guerra da Independência. Quando as agitações pró-independência começaram, Maria estava noiva e, mesmo proibida pelo pai, fugiu, cortou os cabelos, vestiu-se de soldado e foi até Cachoeira, onde alistou-se no Regimento de Artilharia com o nome de Medeiros. Com facilidade no manejo das armas e reconhecida disciplina, lutou até a vitória e foi recebida com festa pelo povo e pelo Imperador quando a guerra terminou. Em 1996, um decreto da Presidência da República reconheceu Maria Quitéria como patronesse do quadro complementar de oficiais do Exército Brasileiro.

Ana Néri ( I 1814 = 1880)

Primeira enfermeira voluntária brasileira. Já viúva, Ana ficou inconformada com a convocação dos três filhos e do irmão, major Maurício Ferreira, à Guerra do Paraguai. Conseguiu o direito de acompanhá-los como voluntária de enfermagem e trabalhou dias e noites, ininterruptamente, nos hospitais militares e na frente de operações. Montou na capital paraguaia, ocupada pelo Exército brasileiro, uma enfermaria-modelo, apesar dos poucos recursos financeiros. Ana perdeu um dos filhos na guerra e, ao voltar ao Brasil, foi recebida com grandes homenagens, como a Medalha Geral de Campanha e a Medalha Humanitária de Primeira Classe, concedidas pelo Império, além de uma pensão vitalícia com a qual educou quatro órfãos recolhidos no Paraguai. Por meio de um decreto, em 2009, Ana Néri entrou para o Livro dos Heróis da Pátria.

Chiquinha Gonzaga ( I 1847 = 1935)

Ô Abre Alas, composição de 1899, ainda hoje embala bailes de carnaval pelo país. Saiu do piano de Chiquinha, ou Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a primeira marcha carnavalesca. Foi ela também a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil e a primeira compositora popular, graças à sua imensa vontade de tirar das rodas sofisticadas o piano e levá-lo ao povo. Iniciou a carreira de compositora com apenas 11 anos, com a música natalina Canção dos Pastores. Casou-se aos 16, por imposição da família, com o oficial da Marinha Jacinto Ribeiro do Amaral, mas pediu a separação algum tempo depois por não aguentar a ausência do marido e as restrições quanto ao seu envolvimento com a música. Seu maior sucesso foi a opereta Forrobodó, de 1911, que chegou a 1,5 mil apresentações consecutivas. Chiquinha passou os últimos anos da vida com um rapaz 36 anos mais novo. Foram morar algum tempo em Portugal para despistar o falatório e o romance só foi descoberto após a morte da compositora.

Bertha Lutz ( I 1894 = 1976)

Considerada uma das maiores líderes da luta pelo direito ao voto feminino, foi na Europa que Bertha entrou em contato com o movimento feminista pela primeira vez, quando foi estudar ciências naturais em Paris. Em 1922, fundou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, que serviu como uma espécie de base para movimento no Brasil. Foi eleita deputada federal suplente em 1934 e assumiu o mandato em 1936. Na Câmara, lutou por melhorias na legislação trabalhista em relação ao trabalho feminino e infantil, como redução na jornada, licença-maternidade de três meses e igualdade salarial. Ficou no cargo até o fechamento das casas legislativas pelo governo no golpe do Estado Novo, em 1937.

Zilda Arns ( I 1934 = 2010)

Médica, Zilda especializou-se em pediatria, sanitarismo e saúde pública. Acreditava que a educação era a melhor arma no combate de doenças de fácil prevenção e, por isso, desenvolveu um método de multiplicação do conhecimento e da solidariedade entre as famílias carentes, visando salvar crianças da desnutrição e da violência. Em 1983, criou a Pastoral da Criança a pedido da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que até hoje ajudou quase 2 milhões de crianças menores de 6 anos e mais de 1 milhão de famílias de baixa renda. Em 2004, atendendo a outro pedido da CNBB, fundou a Pastoral da Pessoa Idosa. A sanitarista morreu no ano passado, vítima do violento terremoto que atingiu o Haiti. Ela estava em missão humanitária em Porto Príncipe para introduzir a Pastoral da Criança no país.

CORREIO BRAZILIENSE

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